Quando o verão tira as sandálias da alma

Por: Mestre Jean Pangolin

Em Massarandupió, o verão não chega em silêncio. Ele invade. Abre as janelas do corpo, escancara a pele, dissolve horários e afrouxa os nós que passamos o ano inteiro fingindo que não existem. Aqui, onde o vento do mar mistura sal, areia e liberdade, o verão não é apenas uma estação: é um espelho.

Quando ninguém está olhando, ou quando acreditamos que ninguém está, começamos a agir de um jeito diferente. Bebemos mais, falamos mais alto, tocamos mais, desejamos sem tanta culpa. O calor autoriza excessos que o resto do ano tenta domesticar. Em Massarandupió, esse fenômeno ganha outra intensidade, porque o lugar parece conspirar a favor da entrega. A praia extensa, a natureza viva, a sensação de anonimato criam o cenário perfeito para que as máscaras escorram junto com o suor.

O verão revela quem somos porque suspende, ainda que temporariamente, as regras internas que nos governam. As escolhas ficam mais impulsivas. O “só hoje” vira justificativa recorrente. O corpo assume o comando e a razão aceita sentar no banco de trás. Há quem descubra prazeres, quem experimente limites e quem, sem perceber, ultrapasse fronteiras que jurava jamais cruzar. Não por maldade, mas por liberdade, essa palavra tão desejada quanto mal compreendida.

Em Massarandupió, a liberdade tem gosto de mar e cheiro de noite quente. Ela convida ao encontro, mas também ao desencontro consigo mesmo. O mesmo espaço que acolhe o descanso pode provocar o excesso; o mesmo silêncio da natureza pode amplificar ruídos internos. Alguns retornam mais leves, outros carregam arrependimentos discretos, guardados como conchas no fundo da mochila emocional.

O verão não cria comportamentos, ele revela. O que aparece ali já existia, apenas estava contido. As escolhas feitas sob o sol forte ou sob a lua cheia dizem menos sobre a estação e mais sobre nossas estruturas internas, nossos vazios, nossos desejos não ditos. Quando ninguém está olhando, não estamos sozinhos: estamos diante de nós mesmos.

E talvez Massarandupió ensine isso com delicadeza rude: liberdade não é ausência de consequência, e excesso não é sinônimo de verdade. O verão passa, a maré baixa, a pele esfria. Mas o que fomos quando o calor nos atravessou permanece como memória, um convite silencioso para olharmos com mais honestidade para quem somos, mesmo quando o mundo volta a nos observar.

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