Um domingo que movimenta muito mais do que barracas
Quem chega à Feira da Mata pela primeira vez pode até pensar que está apenas diante de uma feira cultural.
Mas basta caminhar alguns metros, ouvir um toré, sentir o cheiro da comida feita na hora ou conversar com quem expõe ali, para perceber: o que acontece nesse espaço vai muito além da venda de produtos.
A Feira da Mata é um organismo vivo.
Ela movimenta pessoas, histórias, afetos e — principalmente — uma economia circular enraizada no território, que faz o dinheiro girar entre quem vive, produz e cuida desta região.
Um território onde cultura é também economia
O Litoral Norte e Agreste Baiano carrega uma diversidade sociocultural profunda, marcada pela presença histórica de povos indígenas Tupinambá, comunidades quilombolas, mestres da cultura popular, artistas e coletivos comunitários.
Aqui, cultura não é espetáculo distante: é prática cotidiana, saber transmitido, alimento preparado, objeto moldado à mão, canto que atravessa gerações.
Durante muito tempo, essas expressões permaneceram invisibilizadas, fragilizadas economicamente e fora dos grandes circuitos de fomento.
Foi nesse cenário que, em 2018, surgiu a Feira da Mata — como resposta comunitária, independente e profundamente territorial.
E o que isso tem a ver com economia circular?
Tudo.
A Feira da Mata cria um ciclo simples e poderoso:
quem produz, vende;
quem vende, permanece no território;
quem consome, fortalece a comunidade;
e os recursos voltam a circular entre as próprias famílias, comunidades e iniciativas locais.
Não há atravessadores distantes.
Não há produção em massa.
Há valor agregado ao saber tradicional, ao trabalho manual, à agricultura familiar, à arte e à oralidade.
Isso é economia circular na prática.
Um espaço de encontro, troca e permanência
Ao longo de 2024, a Feira da Mata realizou 7 edições, entre abril e novembro, alcançando direta e indiretamente mais de 8 mil pessoas e beneficiando cerca de 200 famílias de artesãos, artistas e agricultores familiares.
Essas edições contaram com a participação ativa de:
comunidades quilombolas e indígenas,
escolas estaduais,
universidades baianas,
coletivos culturais,
e instituições públicas e internacionais, como a Fundação Pedro Calmon, a UNESCO e órgãos do Governo do Estado da Bahia.
Cada edição foi pensada como experiência completa: feira, roda de saberes, música, literatura, trilha ecológica, culinária e celebração coletiva.
As datas que já movimentam 2026 — e o próximo encontro é agora
A Feira da Mata já tem seu calendário de 2026 definido, reafirmando seu compromisso com a continuidade e a presença constante no território. As edições acontecem mensalmente, sempre aos domingos, criando um ritmo que a comunidade e os visitantes já reconhecem como parte da vida local. E o mais importante: no próximo domingo já tem Feira da Mata, mais uma oportunidade de vivenciar de perto essa engrenagem viva de cultura, troca e economia solidária que não para de girar.
Essas datas não são apenas marcações no calendário — são encontros aguardados, momentos em que o território se reconhece, se fortalece e se apresenta ao mundo de forma genuína. Quem acompanha a feira sabe: cada edição carrega uma energia própria, mas todas compartilham o mesmo propósito de gerar renda, pertencimento e permanência.
Quando o investimento público gera retorno comunitário
Em 2024, a Feira da Mata foi contemplada pelo Edital Festas e Feiras Literárias da Fundação Pedro Calmon.
O resultado foi imediato: ampliação da programação cultural, fortalecimento da cadeia criativa local e maior circulação de visitantes interessados em Turismo de Base Comunitária, ético e respeitoso.
Os impactos ultrapassaram o período do edital.
Mesmo após o encerramento do projeto, os frutos continuaram a reverberar: surgiram exposições permanentes, rodas literárias e iniciativas como o “Pix da Confiança”, onde livros doados podem ser levados mediante contribuição espontânea — um gesto simples que sustenta a própria feira.
E quando o apoio não vem, a feira continua
Em 2025, mesmo sem aprovação de novos projetos específicos, o Coletivo Eco da Mata decidiu manter a Feira ativa.
Com recursos próprios, parcerias e trabalho voluntário, aconteceram edições como o Desafio da Mangaba, o São João e a Feira de Natal, realizada em conjunto com o Quilombo Massarandupió.
A decisão foi clara: não deixar morrer o que foi construído coletivamente.
Manter a feira ativa é preservar vínculos, redes de apoio e a circulação econômica que sustenta tantas famílias.
Economia que respeita o tempo da terra e das pessoas
Na Feira da Mata, cada expositor carrega uma história.
São pães artesanais do quilombo, artesanato em palha e trançado Tupinambá, ecojoias, óleos extraídos de forma artesanal, mudas de plantas, redes, mantas e alimentos cultivados sem pressa.
Nada ali é genérico.
Tudo tem origem, rosto e território.
Comprar na Feira da Mata é um ato econômico — mas também cultural, político e afetivo.
Quem faz a Feira da Mata acontecer: pessoas, histórias e mãos que criam
Por trás das barracas, dos aromas e das rodas de conversa, existem pessoas reais que sustentam a Feira da Mata com seus saberes e fazeres. São nomes como Dona Tonha das Palhas, com seu trançado ancestral no Quilombo Massarandupió; Rose Wrenge, levando os sabores do quilombo do Limoeiro em seus pães artesanais; Seu Zé das Plantas, com mudas e conhecimentos que atravessam gerações; além de artesãos e artesãs Tupinambá como Aykran, Moendy, Amanacy e Ausub, que transformam identidade, território e ancestralidade em arte viva.
Há ainda quem venha do mar, como Haidée, com suas ecojoias de Porto de Sauípe, ou quem traga redes, mantas e tapetes feitos à mão, como Lucenildo, conectando descanso, cultura e trabalho. Cada expositor carrega uma história, uma família e um território — e é justamente essa soma de trajetórias que transforma a Feira da Mata em muito mais do que um espaço de vendas: ela se torna um retrato vivo da economia circular em ação.
Um futuro que já começou a ser construído
A proposta agora é avançar:
qualificar a estrutura, fortalecer os empreendimentos criativos e ampliar o alcance territorial da Feira nos próximos anos, consolidando-a como plataforma permanente de economia criativa e cultura viva no Litoral Norte e Agreste Baiano.
Mas, no fundo, a essência permanece a mesma:
manter viva a troca, a convivência e a circulação de saberes.
Feira da Mata: quando o território cuida de si
A Feira da Mata mostra que desenvolvimento não precisa romper com a tradição.
Ao contrário: quando o território reconhece seus saberes, valoriza seus povos e fortalece suas redes, a economia acontece — de forma justa, circular e sustentável.
E quem participa, sente.
Porque ali, nada é descartável. Tudo circula.




